quarta-feira, 7 de março de 2012

LIS DE CARVALHO- UM BATE PAPO

Lis de Carvalho e seu trio numa conversa com Patrícia Palumbo para o canal Sesc Instrumental.


LIS DE CARVALHO- ENTREVISTA

Entrevista feita por Patrícia Palumbo para o canal Sesc Instrumental sobre o seu trabalho.



domingo, 4 de março de 2012

LIS DE CARVALHO CAMINHO DE DENTRO-UMA PRÉVIA

Concerto completo realizado no SESC INSTRUMENTAL EM SAMPA.


Pré-lançamento do seu primeiro disco liderando um pequeno combo formado por Daniel D'Alcantara(trumpete e flugelhorn) Célio Barros(baixo e produtor do seu disco) via PMC(Produção de Música Contemporânea) e Giba Favery(bateria)


Uma apresentação honesta revelando o seu lado de compositora. A pianista executa temas autorais de composições já feitas há algum tempo.

Destaco o tema DE NOITE.(pela abertura free de Barros e na sua concepção)
Destaque para o baterista Giba Favery que deu o suporte perfeito para essa apresentação.
Apesar de ser um concerto burocrático. Temos como ver e ouvir a ideia do seu trabalho.
Com alguns ecos da escola do piano europeu com Esborjn Svennson, uma pitada de Jarrett e algum arrojo em determinados temas como "DE NOITE" e improvisos super-discretos.

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES:

Talvez por nervosismo de uma pré-estréia gravada na TV. É Praticamente a sua segunda apresentação com esse trio... fica claro como Barros, D'Alcantara e Lis ficam presos a partitura praticamente a apresentação inteira(nada contra tocar lendo) Porém...isso demonstra falta de entrosamento com poucos ensaios(creio eu) e uma certa insegurança do líder.
Certamente, isso também se deve ao fato de ter dedicado uma boa parte da sua carreira lecionando na ULM(Universidade Livre de Música) atual EMESP-TOM JOBIM(uma O.S ligada ao Estado de São Paulo)
Lis de Carvalho, do Primeiro Grupo Feminino Instrumental Kali(anos 80) marcou a sua carreira. Tocou também ao lado de Edu Lobo, Walter Franco e Grupo Coral e Instrumental TOM DA TERRA(seu segundo maior trabalho) e na Teledramartugia produzindo trilha sonora para o SBT.

Certamente, Lis de Carvalho fez parte durante os anos 80 do circuito de jazz e música instrumental da cena paulista ao lado do baterista Duda Neves...Década promissora no circuito instrumental no eixo RIO-SAMPA.

Por quase vinte anos se dedicou há algumas participações(Programa Altas Horas, ao lado do baixista funk-fusion Celso Pixinga ou acompanhando o seu ex-parceiro Cesar de Mercês(do extinto grupo de rock progressivo e rural O TERÇO) e cuidando da área educacional formando e educando jovens talentos.
Lis de Carvalho, agora faz o seu retorno ao tão predatório circuito instrumental, e ainda enfrentar a crise(financeira e criativa) que se assola nesse nicho. Esperamos que seu CAMINHO DE DENTRO possa dar o caminho certo para o seu som, nos resta saber para onde...

BOA SORTE LIS DE CARVALHO...


E não poderia deixar de citar o grande expoente do trumpete paulista Daniel D'Alcantara.


OBSERVAÇÕES DO BLOG:

Lis de Carvalho, fez pouco emprego do piano elétrico Fender Rhodes(cedido por Barros) que poderia ter feito a diferença nesse show, dando um molho a mais.

Prá Luiza(uma levada bossa-novistica em homenagem a sua filha)
Salssando(um tema latino, já gravado por Celso Pixinga)
Sua alma comigo-piano solo.
Sonata Brasileira- Uma sonata em choro-samba(Segunda melhor composição)
Invernal, outro tema também tocado e gravado por Celso Pixinga.

SOBRE O ASPECTO COMPOSICIONAL:


Lis, se ateve em tocar suas composições feitas em outras épocas. Faltou trabalhar mais arranjos dividindo ou dobrando vozes entre os músicos.
Se limitou a desenvolver o tema e fazendo a ponte para alguns vôos do trumpetista Daniel D'Alcantara que demonstrou clareza e precisão no fraseado.
A linha de baixo foi precisa de Barros, que brilhou em alguns momentos, além da sua condução que cumpriu bem o seu papel(tinha mais espaço dentro da melodia),
Coube a distribuição de frases, divisões, condução e sustentação rítmica do Favery que abrilhantou todos os temas.
Em relação ao líder que se saiu bem...já que todas as suas composições são de sua autoria.
Faltou mais arrojo nas passagens dos solistas e uma linha de improvisação mais densa e criativa com ideias na mão direita e aplicando a chamada e resposta entre os interlocutores musicais do seu Combo.
É isso...até um outro dia...






SET LIST: Na ordem da apresentação no SESC INSTRUMENTAL.

Caminho de Dentro.
Jaboticaba.
Salssando.
Invernal.
Sua Alma Comigo(piano solo)
De noite.
Prá Luiza.
Sonata Brasileira(o link mais votado no momento)

Todas as composições são de autoria de Lis de Carvalho.
Tempo total: 63'12''


Outras matérias referentes ao trabalho de Lis de Carvalho, pesquise no blog em publicações antigas.



















MONIQUE ARAGÃO EM VERSÃO IMPRESSA.


MÚSICA, MENTE, CORPO E ALMA
Interpretação e a comunicacão através da música
Monique Aragão
Editora Rocco



Premiada pianista e compositora, depois de lançar seis CDs autorais e
publicar livros de partituras, Monique Aragão estreia como escritora com um
grande desafio que impôs a si mesma: tentar responder objetivamente a várias
questões subjetivas que envolvem sua especialidade. A primeira delas é: o
que a música, um poderoso meio de comunicação, comunica exatamente?

Em onze capítulos curtos e atraentes ‹ que têm sempre como epígrafe uma
frase de algum músico conhecido ‹ a autora trata de cada tema proposto de
forma clara, sem excessos de didatismo.

Explicar a função do intérprete na música; investigar sua personalidade
artística e carisma; mostrar as diferenças entre talento e vocação,
musicalidade e técnica e a importância de todos estes atributos na vida do
artista; encontrar formas para definir o que é a beleza e seu papel numa
obra de arte. Estas são algumas das difíceis propostas de Monique, para quem
os sons ‹ como ela própria confessa, na introdução ‹ sempre lhe vieram mais
facilmente que as palavras.

O tom de conversa faz o texto fluir com leveza, fugindo do hermetismo e de
outros obstáculos que pudessem se intrometer na palavra-chave do livro:
comunicação.

Nomes e situações foram alterados, mas todo o conteúdo é baseado em
experiências de Monique como educadora e pessoa que pensa a arte a que se
dedica.

Imagens são usadas para facilitar a compreensão da arte de ouvir os sons;
filmes e livros famosos servem para ilustrar temas diversos e explicar o
aparentemente inexplicável, como a beleza ‹ para explicar como a percebemos
por intermédio dos cinco sentidos, por exemplo, a autora lança mão de ³Ray²,
³A sereiazinha², ³O perfume² e ³Como água para chocolate², entre outros.

Personagens mitológicos, como Zeus, Narciso, Dionísio e Chronos, também
servem de ferramenta a Monique, que passeia pela cultura clássica e pela
cultura popular ‹ incluindo-se aí obras de ficção científica, seriado de
televisão e muito mais ‹ para tentar elucidar e desmistificar conceitos como
o da genialidade e o que nos motiva a considerar uma música brega ou até
mesmo a rejeitá-la por completo ‹ como aconteceu com as últimas obras de
Beethoven à época de sua criação.

A tarefa da autora pode parecer hercúlea, no entanto, certamente por tratar
a complexidade com uma linguagem simples e direta ‹ resultado de oito anos
de trabalho ‹ o livro flui como se tivesse sido escrito com extrema
facilidade e é compreensível até para os mais leigos.

NOTA DO BLOQUEIRO: Mauro Wermelinger.

Um livro instigante que retrata a música como ela deve ser: Livre, espiritual e mostrando que o som é para todos desse universo abstrato.
Levando o leitor ao seu mais profundo desejo musical, que a música permeie todas as pessoas de bem.
Como está escrito no seu livro:

Música: arte maior, ápice da criação humana.
Mente: para a sua execução composicional e reflexão.
Corpo: Para o seu condicionamento físico, técnica, interpretação e improvisação.
Alma: Um mergulho nas mais profundo sentimento musical e espiritual.

M.M.C.A-Uma boa sigla...que seja adotada...

Release cedido por Monique Aragão.

sábado, 3 de março de 2012

MONIQUE ARAÇÃO, UMA PIANISTA À SERVIÇO DA EDUCAÇÃO



Monique Aragão

Pianista, compositora e arranjadora carioca, nascida a 10 de novembro de 1960, formada em música pela Universidade do Rio de Janeiro.

Foi premiada nos concursos de piano ALCINA NAVARRO (1970), LIDDY MIGNONE (1973) e LÚCIA BRANCO (1976) de música erudita e recebeu, em 1992 o PRÊMIO SHARP de REVELAÇÃO INSTRUMENTAL pelo seu 1º CD MONIQUE ARAGÃO (Selo Perfil Musical). Em 2009 recebeu o título de “Mulher do Ano em Música” pelo Conselho Nacional de Mulheres do Brasil, na Academia Brasileira de Letras.

Em sua discografia autoral figuram os CDs , MONIQUE ARAGÃO ( 1991-Perfil Musical) ; CANOAS (1993-Perfil Musical), também com composições próprias; VENTOS DO BRASIL (1995- selo francês Buda Musique) com distribuição mundial; OS OLHOS DE CRISTAL (1997-Vitale Records.) para crianças; MARCAS DA EXPRESSÃO (1999- Kuarup) e SUITE DO RIO (2006- Delira Música).

Compôs trilhas Originais do longa metragem O FILME DA MINHA VIDA (de Alvarina Souza e Silva -1991), dos espetáculos de dança O RIO CARIOCA (1994), REQUIEM PARA A FLORESTA (1996) E CALLAS (1998) da COMPANHIA DE DANÇA RIO.

Compôs também a trilha do musical infantil BALBINO & BENTO ( de Elizabeth Araújo) e da peça teatral FLOR DE OBSESSÃO (de Robert Guimarães).

Produziu e escreveu os livros de partituras CORAL HOJE (1989), O MELHOR DE ERNESTO NAZARETH (1997) e SEIS ESTUDOS PARA A MÃO ESQUERDA (1997), todos pela editora Irmãos Vitale.

Estreou a comédia musical SUCESSO, assinando texto, músicas e direção, na Casa do Riso, em março de 2001.

Foi professora de interpretação e técnica vocal nos programas FAMA, FAMA BIS (2002). e FAMA III (2004) da REDE GLOBO de televisão. Também foi professora da Universidade do Rio de Janeiro (UNIRIO) no período entre 1999 e 2001.

Em dezembro de 2006 foi indicada ao prêmio Rival-Petrobrás na categoria “Melhor Arranjador” pelo seu CD “Suite do Rio”.

Publicou o livro “MÚSICA, MENTE, CORPO E ALMA – Interpretação e a Comunicação Através da Música” pela Editora ROCCO em 2011.

Suas composições e performances figuram também nos Cds ORQUESTRA DE SAX, MARIA TEREZA MADEIRA, CORAL CANTO EM CANTO, BALADAS BRASILEIRAS de David Ganc, CHARANGA de Ronaldo Diamante, ORQUESTRA DOS SONHOS de Tim Rescala, TEMPO BOM de Telma Costa, DOLORES (trilha sonora da peça homônima), ROMANCE POLICIAL de Tim Rescala.

Monique Aragão trabalha desde 1983 como diretora musical e arranjadora em espetáculos teatrais, se apresentou nos melhores teatros do Brasil, como pianista solista ou acompanhando artistas da MPB, e atua em produções de TV como produtora musical.

Uma musicista que flerta em todas a seara da área pianística, esbanjando talento, capacidade educacional além do limite. Colocando o seu piano a serviço de todas as formas de arte e sempre pensando no seu cunho educacional.

Nesse mercado altamente predatório, Monique Aragão passeia sultimente e marcando sempre o território da cena pianística do Rio de Janeiro.

Avessa ao modismo que infesta as diversas correntes do piano, ela costuma ser inclassificável no seu estilo do clássico ao popular, do jazz a música de concerto, o piano de Monique Aragão se destaca nesse cenário.

Quarenta e dois anos de uma relação enamorada ad eternum com as oitenta e oito notas, brancas e prêtas sem preconceito ou pré-conceito.


Biografia cedida por Monique Aragão.

Texto final: Mauro Wermelinger.

Fotos(Facebook, Monique Aragão)








JOVINO SANTOS NETO E SEU ENCONTRO COM HERMETO PASCOAL

JOVINO SANTOS NETO | Tocando a campainha, na casa de Hermeto Pascoal

Hermeto Pascoal

Era um domingo ensolarado em novembro de 1977. Eu e meu amigo de infância Jacinto olhamos para o portão fechado à nossa frente, ali na Rua Vitor Guisard, no Bairro Jabour, perto de Senador Camará, Zona Oeste do Rio de Janeiro. Eu perguntei a ele:

— Será que eu toco a campainha? Ele me garantiu que ali mesmo, naquela casa por detrás do muro alto, morava o Hermeto Pascoal. Ele havia chegado de São Paulo há um ano. Sem mais titubear, apertei o botão.

Eu estava ali por curiosidade pura. Recém-chegado há duas semanas de Montreal, no Canadá, onde eu tinha passado 3 anos estudando biologia e tocando música, eu agora me encontrava de volta ao meu bairro de nascença, Realengo, ali pertinho do Jabour, a caminho de um curso de pós-graduação na Amazônia. Minha curiosidade era grande. Em 1967, aos 13 anos, eu vibrei com Edu Lobo e sua linda composição “Ponteio” que venceu o festival da Record, sem me dar conta que aquela flauta que parecia um pássaro cantando por detrás das vozes era tocada por um albino baixinho sem pescoço, escondido detrás dos outros instrumentos. Eu havia lido uma reportagem da revista O Bondinho de 1972, antes de ir estudar fora, com uma matéria sobre aquela figura exótica e quixotesca mesmo antes de ouvir sua música, o que só veio a acontecer em 1973, no Teatro Fonte da Saudade, na Lagoa. Assisti a outro show do Hermeto no Museu de Arte Moderna do Rio em 1975, enquanto passava férias e mais uma vez, saí de lá maravilhado com o som, mas confuso por não saber colocar o que eu tinha ouvido dentro de nenhuma categoria conhecida. De volta ao Canadá, conheci outras facetas do trabalho do Hermeto nas gravações que ele fez com Airto Moreira e Flora Purim. Por isso, de volta ao Brasil, em 1977, eu me encontrava ali, prestes a tocar a campainha da casa dele, e meio nervoso, sem saber o que lhe dizer.

Juntei a coragem e apertei o botão. Dona Ilza Pascoal, esposa do Hermeto e mãe de seus seis filhos, abriu o portão:

— Pois não… Eu gaguejei:

— O-O-O Hermeto está? Eu sou músico e gostaria de conhecê-lo. Ela me conduziu até a sala, e de repente eu me vi sozinho ali, sentado no sofá, enquanto Hermeto Pascoal, de short e sem camisa, estava tocando num piano elétrico com fones de ouvido, seus olhinhos fechados. Tudo que eu ouvia era o batucar das teclas. Uns 20 minutos se passaram, o que me pareceu uma eternidade. Eu já estava pensando como ia sair de fininho, sem que ele notasse, quando ele abriu os olhos, sorriu e me cumprimentou:

Unica Zürn— Tudo bem? Comecei a me apresentar. Tudo o que eu queria era lhe dizer da minha admiração pelo seu trabalho. Falei do grupo com quem eu tinha tocado piano no Canadá, Mélange, e disse que estava ali no Rio de passagem, a caminho de um curso de pós-graduação na Amazônia. Será que o Hermeto conheceria um lugar para se tocar um pouco, onde rolava uma jam session? Eu mostrei a ele uma fita cassette do Mélange, e ele me mostrou uma do novo disco dele, o “Missa dos Escravos”. Tocou a faixa-título, com o som dos porcos e aqueles acordes muito estranhos para mim. Ele então me perguntou:

— Você sabe ler partituras, acordes cifrados? Eu menti:

— Ah, sim, claro…

— Olha, eu tenho um Grupo, e estou querendo tocar mais flauta e saxofone, precisava de um pianista para essa sexta-feira para um show no Morro da Urca, você toparia fazer comigo?

Isso não era bem o que eu esperava, pois eu nunca pensei que ele fosse me convidar para tocar. Eu retruquei que não poderia assumir nenhum compromisso, devido ao meu curso, tinha uma prova para a bolsa de estudos em 2 semanas, etc… Ele disse:

— Escuta, se você quiser tocar, pode ser sem nenhum compromisso, me avise quando tiver que ir para a escola e fica tudo bem. Ele então puxou uma folha de papel com uns acordes escritos. Lembro claramente do tema, “Campinas”, uma linda balada que ele havia composto há pouco tempo. Ele me pediu para sentar ao piano elétrico e tocar os acordes. E ali mesmo, sem saber formar nem a metade deles, ambos nos certificamos que eu realmente não lia nada. Minha experiência musical incluía umas aulas de piano que eu tive com a Dona Jupyra quando tinha 12 anos, mas desde então, tudo que eu tocava era de ouvido, músicas copiadas do rádio ou de discos, e minhas composições, que eu tocava de cor. Hermeto deu um sorriso matreiro, e disse:

— É, acho que você precisa ensaiar um pouco… pode vir aqui amanhã de tarde? Os meninos do Grupo vêm ensaiar, e você vai aprender com eles. E lá fui eu pra casa, sem saber direito onde tinha amarrado meu burro. Claro que eu não poderia entrar de novo num conjunto musical, tinha outros planos traçados, uma vida dedicada à pesquisa científica dentro da biologia, onde a música figurava apenas como um hobby, uma distração. Eu havia provado de um pouco da vida de músico no Canadá, e não achava que meu caminho era viver dentro dos ambientes enfumaçados dos clubes, tocando para gente que não estava lá para ouvir música. E agora estava dividido, porque dentro de mim, algo queria muito mesmo tocar, aprender e compartilhar aquele som.

Segunda-feira, 14h, lá estava eu de volta ao Jabour. Conheci Itiberê Zwarg, baixista e Peninha, baterista. Hermeto me apresentou a eles e começamos a ensaiar, uma variedade de temas: um baião, um frevo, aquela balada que eu não conseguia tocar. Lá pelo meio da tarde apareceu um percussionista que se chamava Pelé. Ele havia conhecido o Hermeto durante a gravação do disco “Orós” do Fagner, e foi convidado para aparecer no ensaio. Hermeto disse a ele:

— Campeão, esse negócio de ser Pelé não dá, você vai se chamar Pernambuco. Pelé/Pernambuco havia trazido um berimbau e umas tumbadoras, mas o Hermeto, que sempre chamava todos de “Campeão”, disse:

— Olha, vende esses negócios, porque você vai ser um percussionista diferente. Nada de tumbadora ou berimbau, já tem muita gente tocando isso. Amanhã você vai no Mercado de Madureira e arranja uns chocalhos de bode, umas conchas e umas panelas. Vamos criar uns instrumentos novos.

E assim a semana passou, o Grupo ensaiando, tocando o mesmo tema 20, 30 vezes. Eu, meio apressado, achava que estava bom, que poderíamos ensaiar outros temas, ou então improvisar, que era o que eu no fundo queria, mas o Hermeto insistia que ainda tinha muito o que melhorar. No segundo dia de ensaio apareceu o Cacau, saxofonista e flautista que tocava com o Grupo há algum tempo. Eu nunca tinha tocado num grupo assim antes, em que as partes eram definidas e ensaiadas múltiplas vezes, enquanto o Campeão (nós o tratávamos pelo mesmo nome que ele nos tratava) mudava uma nota aqui, uma batida ali, e todos reescreviam suas partes na hora. Muitas vezes apenas a “cozinha” (piano, baixo e bateria) ensaiava o tema inteiro, sem os sopros. Eu, que havia me acostumado a tocar sempre com outros músicos cobrindo meus erros, de repente passei a me sentir muito vulnerável. Nesta nova situação musical, o baterista nunca marcava o tempo; ele tocava de uma forma mais livre, colorindo as frases, o que me deixava meio inseguro, sem entender direito como fazer com todas essas vozes coexistindo. Hermeto assumia o piano e tocava, às vezes improvisando durante 15 ou 20 minutos com a banda, o que me deixava louco de vontade de imitá-lo. Um dia perguntei a ele:

Unica Zürn— Você pode me ensinar técnica, exercícios para tocar assim rápido e limpo? Ele sorriu:

— Não, técnica não existe separada da música. Esses temas que vocês estão ensaiando exigem técnica, e por isso temos que repetir muitas vezes, para que a mente e as mãos possam aprender naturalmente. Mas se você quiser estudar apenas a técnica, você vai virar um robô, tocando um monte de escalas e frases feitas de forma automática.

Por fim chegou a tal sexta-feira. O show era na Concha Verde, que era um anfiteatro ao ar livre no alto do Morro da Urca. Para chegar lá era preciso tomar o bondinho do Pão de Açúcar, o cartão postal mais conhecido do Rio de Janeiro. Eu cheguei lá cedo, muito feliz em ver o local apinhado de gente, com pessoas encarapitadas em cima das árvores para ficar mais perto do palco. Eu nunca tinha participado como músico de um evento assim, e estava ansioso para mostrar tudo aquilo que havíamos ensaiado durante a semana. Peguntei ao Hermeto qual seria a primeira música da noite, e ele respondeu:

— Não sei, vamos entrar no palco e criar um lance. Eu fiquei confuso:

— Como assim? E os temas que a banda ensaiou esses dias todos?

— Hoje e agora não é uma boa hora para aqueles temas. Vamos tocar outros. E de repente lá estávamos nós no palco, criando levadas, improvisos e solos que nunca tinham acontecido antes. Outros músicos apareceram: Mauro Senise, José Carlos Bigorna, Márcio Montarroyos, de repente havia um naipe de sopros no palco tocando coisas que eu nunca havia ouvido. Numa certa hora Hermeto me manda entrar no palco e fazer um solo de clavinete, um teclado com cordas. E eu perguntei:

— Que tipo de solo você quer que eu faça? Meio soul, funk, rock?

— Nada disso – quebre tudo, toque o que você sentir na hora. Eu fui, sem saber direito o que era “quebrar tudo” e assim que eu comecei a tocar, ele parou a banda inteira e todos saíram do palco, me deixando sozinho com centenas de pessoas ouvindo. Foi ali naquele momento que eu me dei conta que uma transformação estava acontecendo, uma coisa meio misteriosa que eu não conseguia entender, mas que era uma delícia. Claro que ter as pessoas aplaudindo era bom, mas a satisfação maior era a de encontrar naquele momento uma resposta intuitiva em mim para um desafio que envolvia a mente, o corpo e o coração, tudo junto. Toquei sem pensar em frases pré-construídas, de uma forma tal que os espaços entre as notas se tornaram tão ou mais importantes que as notas.

Ao final do concerto, todos estávamos exaustos e felizes, e o Hermeto me perguntou:

— E então, gostou?

— Claro, adorei…

— Bicho, se você quiser, sábado que vem temos um outro show em São Paulo. Quer fazer? E eu, já imaginando o que poderia acontecer, respondi:

Unica Zürn

— Eu gostaria, Campeão, mas nesse dia eu tenho que fazer a prova para minha bolsa de estudos aqui no Rio, dura o dia todo…

— Que horas é a prova?

— das 7 às 16h.

— Pronto! Nosso show é às 21h em S. Paulo. Você faz sua prova, pega a Ponte Aérea e chega lá no Ginásio da Portuguesa a tempo, vamos te esperar… tem uma passagem te esperando no aeroporto.

E como tinha de ser, eu fiz a prova no Rio, e peguei o avião pra Sampa e um táxi para o local do show. Cheguei na Portuguesa e estava acontecendo um tipo de festival, a Clementina de Jesus e Xangô da Mangueira estavam cantando, e lá atrás do palco, o Hermeto e o resto da banda. Fiquei feliz de rever o pessoal, e o Hermeto me cumprimentou:

— Está pronto?

— Estou, Campeão.

— Então vamos nessa. O concerto foi totalmente diferente do que aconteceu no Rio, o público em São Paulo ouvia de uma forma muito diferente. Foi a primeira vez na vida em que eu percebi que cada nota que eu tocava ressoava em alguém lá na platéia, e voltava para mim com uma vibração. Tudo o que a banda tocava era amplificado não pelos alto-falantes, mas pelo povo que estava ali bebendo daquele som. E eu vi como o Hermeto se alimentava daquela vibração. Naquela época ele tocava uma flauta com captador e uma caixa de efeitos que ele podia manipular, achando sons de microfonia e distorções, que antes só com Jimi Hendrix eu havia ouvido. Ali, naquele momento, eu entendi o porquê do apelido de “Bruxo” que o Hermeto tinha. A flauta era uma varinha de condão, e ele a usava de uma forma natural, sem maneirismos, tocando e apontando para o amplificador, usando a microfonia como uma melodia. Ouvi naquele concerto outros temas que nunca havia conhecido, inclusive a linda “Aquela Valsa”, que o Mauro Senise tocou de sax soprano. Eu não toquei o piano o tempo todo; várias vezes o Hermeto corria e me enxotava do teclado, dizendo:

— Vá pegar uma percussão e fique ali ao lado do Pernambuco, mas sempre de olho em mim. Eu ia, e enquanto tocava um triângulo ou caxixis, observava como ele era capaz de pegar um certo ritmo ou estilo e injetar uma coisa nova, uma nova tonalidade, até que a maré se estabilizava outra vez, e ele me dava um sinal para retornar:

— Agora fique tocando assim, mas não deixe a peteca cair de novo!

Eu, que nem sabia que a peteca tinha caído, achava que estava tudo bem, mas ele estava ouvindo tudo, e com firmeza e carinho, corrigia meus muitos erros e comentava depois:

— Olha, eu às vezes grito e pareço meio grosseiro no palco, mas o som está rolando, e o som é sagrado. Não ache que eu estou com raiva, estou cuidando do som. A maneira carinhosa com que ele tratava todos do Grupo deixava isso bem claro, mas ele nunca deixava passar um segundo em que as peças daquele quebra-cabeça complexo estivessem fora do lugar, sem que ele interviesse para ajustar um ou outro detalhe.

Em São Paulo, passei a conhecer o lado estradeiro do Hermeto. Em casa no Jabour, ele nunca saía, ficava em casa vendo futebol e tocando, mas nas viagens ele se tornava aquele personagem que os índios americanos chamam de “Coiote”, o brincalhão esperto, o coringa multicolorido que desafia, desacata e desafia tudo que estivesse na frente do Som. Na manhã seguinte ao show da Portuguesa, eu fui ao seu quarto de hotel e ele me disse:

— Ouça esse choro lindo que eu escrevi: e tocou sentado na cama um chorinho de 3 partes no sax soprano, e eu pensando: Como nunca ouvi esse choro antes? Ao fim, ele disse:

— Escrevi nada, inventei isso agora mesmo, improvisei a música inteira. Isso para mim passou a definir a essência Hermética. O improviso tão estruturado que parece escrito, e a escrita tão fluida que parece fluir da chama do improviso free.

Unica ZürnOutra coisa que me atraiu muito no Hermeto era a fibra nordestina. Como neto de sergipano, cresci ouvindo o linguajar e a maneira nordestina de pensar, falar e agir, e o Hermeto representava o arquétipo do “cabra da peste”, o vaqueiro do agreste que dribla o clima, a distância, as limitações físicas e tudo o mais que vier ao encontro da sua rota traçada pelo destino. Hermeto me lembrava um peão montado num cavalo chucro, correndo no meio da caatinga espinhosa atrás da rês desgarrada da melodia, usando a rede da harmonia e o tropel da zabumba para alcançar seu objetivo.

Com o fim do ano de 1977, tudo aconteceu ao mesmo tempo para mim: a descoberta de um universo musical de cuja existência eu nem suspeitava, junto com a aprovação para o curso de mestrado em ecologia no Instituto de Pesquisas da Amazônia. Uma escolha devia ser feita, e logo.

Uma trilha que se bifurca na mata, sem sinais ou setas apontando o caminho certo. Deveria eu seguir os estudos iniciados, explorando com a mente as muitas conexões entre a natureza e os seres vivos, ou pular de cabeça nesta aventura de músico, aprendiz do feiticeiro com varinha de condão de prata, e muitos truques escondidos na cartola branda da sua cabeleira? Foram umas semanas de muita reflexão e insegurança. Aos poucos me dei conta que naquele momento eu era um passageiro na estação ferroviária, vendo dois trens passando, aparentemente indo em direções contrárias. E ali naquele instante, pude entrever o espaço entre os vagões, como uma janela entreaberta. Essa era minha chance de saltar, confiar na intuição e encarar o desafio da música, sobre a qual eu sabia nada ou quase nada, deixando a linha reta da ciência, uma estrada asfaltada onde eu sabia como avançar, pela corrente do rio da música, cheia de surpresas, com suas enchentes e secas. Nadar ou afundar…

Tive o apoio fundamental de meus pais, que nunca se opuseram à minha decisão. Lembro claramente quando disse a meu pai que iria recusar a bolsa do INPA para ficar morando em Realengo, ensaiando todos os dias com uma trupe mambembe. Ele me disse calmamente:

— A vida é sua, tome sua decisão e siga em frente. Só não me venha dizer daqui a seis meses que quer ser biólogo outra vez, certo?

E esse foi o começo de um novo capítulo, um aprendizado que me pediu quinze anos de minha vida, e que me deu em troca a chave do Universo da Música.


Jovino Santos Neto (Brasil, 1954). Músico, compositor, arranjador e produtor. Por 15 anos, trabalhou em tempo integral com Hermeto Pascoal, como pianista, flautista, co-produtor de sete álbuns e excursionou internacionalmente, responsável pelo grupo. Criou um arquivo para documentar e preservar milhares de composições de Hermeto. Em 1993, Jovino se mudou para Seattle, nos Estados Unidos, para estudar regência e desenvolver sua carreira como compositor, pianista e arranjador. Entre 95 e 97 tocou com Airto Moreira e Flora Purim e excursionou por todo o mundo. Gravou discos como Alma do Nordeste (2007), See the sound (2010) e Current (2011). Publicou o livro Tudo é som, com 32 músicas de Hermeto Pascoal. Ensina piano e composição Cornisa College of the Arts em Seattle. Publicamos aqui o primeiro capítulo de um livro em andamento. Contato: jovino@jovisan.net. Página ilustrada com obras da Unica Zürn (Alemanha), artista convidada nesta edição da ARC.


Fonte: Agulha Revista de Cultura.